Abba: Haja vida
Ossos, Cicatrizes e Paternidade
Ór.fão (s.m.) Aquele que tenta caber em molduras que não foram feitas para o seu rosto; a alma que se mutila para tentar merecer o fôlego que deveria ser herança.
Minha orfandade sempre foi o resultado de uma falta de identidade gerada por uma distância que sempre acreditei ser necessária. Distância do amor entregue da forma mais caoticamente suave já notada. Eu mesma me coloquei em uma caixa onde havia um padrão a seguir; um quadrado que, a cada momento, ficava mais e mais estreito, exigente e forçado, até que não me coube mais.
E a pergunta agora era: quem eu sou? Não tinha mais onde me limitar. Uma limitação desconfortável, porém cômoda para quem nunca soube se olhar no reflexo da água e ver alguém ali — um rosto em si mesmo. Como eu poderia ser, se nunca soube existir sem limites? Se não ouvi o fôlego, então nunca houve vida. Não fui gerada, nascida e nomeada em graça. E que graça é essa que nunca pude tocar, sentir e experimentar? Somente admirar como uma exposição restrita, onde apenas aqueles que retiravam e rompiam seus tecidos, ossos e carne — tecendo-se com menos do que eram para chegarem a um lugar onde se achavam merecedores — podiam entrar.
Es.tran.gei.ra (s.f.) O exílio de quem não aceita mais o cativeiro, mas ainda não aprendeu o caminho de casa; o silêncio de quem tem pernas rápidas, mas ainda não tem destino.
Enquanto alguns se despiam de suas almas para se manter em menos espaço, eu fugi. Corri, caminhei, cansei e estranhei. Estranhei como minhas pernas se moviam, como meus braços pendiam para baixo e não se fixavam mais em direção ao palco; como minha cabeça girava e se cansava, pronta para se deitar em terra seca. Meus olhos podiam alcançar todas as direções e distâncias, mas estavam exaustos demais para buscar por aquilo que não conheciam. Me iludi com a imensidão da terra — terra que não me era prometida — e me enganei com uma grandeza que nem ao menos era real. Eu só pensava estar livre.
Mas o que a liberdade me proporciona se, com minhas pernas rápidas, eu não tinha para onde ir? Se meus braços, que não precisavam mais se estender para alcançar o que todos pareciam capazes de atingir, não tinham mais por que se erguer — seja para cumprimentar, tocar ou ao menos abraçar? Minha cabeça, que já pendia, estava abatida; como os olhos, a mente e a alma. Não havia onde ficar. Meus pés continuaram vagando em terras não pertencentes — terras sem nome, como eu. Agora eu não era mais órfã; era estrangeira. Sem ir, sem vir, sem ficar. Uma estrangeira em lugar nenhum.
Fi.lha (s.f.) A pecadora perdoada que redescobre o direito de pintar fora da linha; o rastro da criança que o Pai não deixou morrer no deserto.
E então veio a dor, finalmente. Lágrimas, feridas abertas, sussurros inaudíveis, fome, sede, cansaço, morte. E novamente veio a dor: lágrimas, feridas abertas, sussurros inaudíveis, fome, sede, cansaço, morte.
E o Pai falou: “Haja vida”. E houve vida. Inspirei, expirei — Vida.
A vida onde antes não havia fôlego; a terra que não me pertencia; o nome que nunca me chamaram; a mesa à qual nunca me juntei. Ele me chama não só me nomeando, mas me dando a graça da paternidade eterna. Não me convidou apenas para a mesa, mas sustentou meus tecidos, ossos e carne por completo. Trouxe consigo meus pés — antes limpos, mas sem marcas — agora com as cicatrizes feitas no deserto. Assim como as mãos que apontavam para direções sem propósito, hoje Ele colocou Seus braços em volta do meu coração, e os olhos dEle estão em mim. Houve um chamado, não houve escolha: Ele me chamou de filha do Criador. Criada para ser o que significa Ser.
O Céu não fica em um quadrilátero onde nos tornamos insípidos à nossa própria alma. Não queremos mais gavetas trancadas com o nosso caos — aquele que aprendemos a fazer quando éramos moços, quando pintávamos fora da linha, quando rodávamos até ficarmos tontos, quando gritávamos e jurávamos que estávamos cantando uma linda ópera. Quando éramos pequeninos com medo de sermos grandes para o Pai. Quando éramos imperfeitos, porque a perfeição do Rei já nos bastava.
Quando vimos que nosso Papai era um artista, descobrimos que éramos artistas também — e ainda somos. Ele nos curou sem descaracterizar a nossa criança; sarou nossa terra ferida e não herdada, e nos fez príncipes do Reino eterno. Não me chamou pelos tropeços, culpas e perversidades, mas deu nome à minha identidade a partir da dEle. Chamando-me de filha, de princesa, de pecadora perdoada.






É com textos como esse que nós entendemos a imensidão do amor de Jesus por cada um de nós. Todos estávamos condenados ao inferno, mas graças a Ele e apenas Ele, temos a chance de sermos libertos dessa maldição - que era pra ser chamada de Nosso Destino. Ele escolheu. Cada um de nós. Somos escolhidos do Senhor. Que cada dia que passa nossa graça se encha, nossa devoção transborde e a vergonha de espalhar o amor de Cristo seja abatida. Amém.